Analista de crédito de 2030: como será esse profissional?

Analista de crédito de 2030 utilizando dados e inteligência artificial

Analista de crédito de 2030: como será esse profissional?

O analista de crédito de 2030 provavelmente dedicará muito menos tempo a coletar informações, preencher planilhas, calcular indicadores e produzir textos padronizados.

Mas se pensarmos bem, na verdade, esse futuro já chegou e está se desenvolvendo rapidamente. Boa parte dessas atividadesjá começa a ser executada por sistemas, automações e inteligência artificial.

Isso significa que o analista de crédito perderá importância?

Acredito exatamente no contrário. O profissional continuará sendo fundamental. Porém, o valor que ele entrega deverá mudar significativamente.

O analista que hoje dedica grande parte do seu tempo à produção da análise terá de se transformar, cada vez mais, em um profissional capaz de interpretar informações, questionar resultados, compreender negócios, construir cenários e apoiar decisões.

Essa transformação não está distante. Como comentei antes, ela já começou.

O analista de crédito de 2030 começa a ser formado agora

Quando pensamos em 2030, podemos ter a impressão de estar falando de um futuro distante. Mas não estamos.

As ferramentas disponíveis atualmente já conseguem ler demonstrações financeiras, extrair dados de documentos, calcular indicadores, pesquisar empresas, identificar tendências e produzir análises em poucos minutos.

Além disso, modelos de inteligência artificial conseguem relacionar informações financeiras e não financeiras e formular hipóteses que antes exigiam horas de trabalho.

Esse processo tende a acelerar.

O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, estima que 39% das competências atualmente utilizadas pelos trabalhadores deverão mudar ou se tornar obsoletas até 2030.

Entre as competências cuja importância mais deverá crescer estão inteligência artificial, Big Data e alfabetização tecnológica.

Por outro lado, o mesmo estudo coloca o pensamento analítico entre as competências essenciais para o futuro.

Essa combinação é reveladora, pois nesse novo cenário a tecnologia ganha importância, e a capacidade humana de analisar também.

Para o profissional de crédito, essa talvez seja uma das principais pistas sobre o futuro da profissão.

Quais atividades do analista de crédito serão automatizadas?

Durante décadas, a atividade de crédito foi construída em torno da obtenção e do processamento de informações.

Recebemos balanços e demonstrações de resultados, eeclassificamos contas, calculamos indicadores, consultamos bureaus, pesquisamos restrições, comparamos exercícios, calculamos limites, e finalmente, escrevemos um parecer.

Grande parte desse processo envolve atividades repetitivas e estruturadas. Justamente por isso, muitas delas são candidatas naturais à automação.

A tendência é que sistemas façam cada vez mais a captura e organização das informações. A inteligência já ajuda na leitura das demonstrações financeiras, no cálculo dos indicadores, na comparação histórica e até na elaboração de uma primeira interpretação dos números.

Da mesma forma, sistemas podem monitorar continuamente mudanças cadastrais, financeiras, comportamentais e mercadológicas.

Isso muda uma questão fundamental.

Se uma máquina consegue calcular um índice de liquidez em segundos, o valor do analista não pode estar no cálculo do índice, mas na verdade precisa estar na compreensão do que aquele indicador representa.

O analista de crédito de 2030 precisará entender o que existe por trás dos números

Imagine duas empresas com liquidez corrente de 1,20.

Em uma leitura superficial, poderíamos dizer que ambas possuem R$ 1,20 de ativos circulantes para cada R$ 1,00 de obrigações de curto prazo. Matematicamente, é verdade.

Do ponto de vista de risco de crédito, entretanto, essa informação é insuficiente.

A primeira empresa pode possuir elevada disponibilidade financeira, contas a receber de boa qualidade e estoques de rápida renovação. A segunda pode apresentar caixa reduzido, recebíveis vencidos e estoques com baixa liquidez.

O indicador é exatamente o mesmo, mas o risco não é.

Por isso, interpretar demonstrações financeiras exige muito mais do que calcular índices, demanda compreender como a empresa gera caixa, financia suas operações e sustenta seu crescimento. Afinal de contas, a decisão de crédito sempre dependerá da qualidade da gestão econômico-financeira da empresa avaliada, e da sua perspectiva de desempenho futuro. Esse raciocínio é importante e será cada vez mais.

A análise financeira continuará fundamental, mas precisará ser cada vez mais ser desenvolvida sob o ponto de vista gerencial

Considere outro exemplo. Uma empresa apresenta crescimento de 30% nas vendas. À primeira vista, isso é uma excelente notícia. Mas o analista precisa avançar na avaliação para saber se isso é bom ou ruim esclarecendo aspectos que fazem parte do processo de gestão da empresa, fazendo alguns questionamentos, como pro exemplo:

Qual o impacto desse crescimento em relação a gestão do capital de giro? Como esse cenário afetou o prazo de recebimento das vendas e o saldo das contas a receber de vendas a prazo? Os estoques cresceram na mesma proporção? A empresa precisou recorrer aos bancos para financiar a expansão? A margem operacional melhorou ou caiu? O fluxo de caixa operacional acompanhou o lucro?

Em outras palavras: o crescimento está produzindo caixa ou consumindo caixa? Como o cenário da empresa reflete a sua capacidade de pagamento?

Uma empresa pode apresentar crescimento expressivo de vendas e, simultaneamente, aumentar significativamente seu risco financeiro. Isso acontece porque crescimento também demanda capital de giro.

Portanto, não basta identificar a variação das receitas. É preciso compreender as consequências financeiras da estratégia comercial.

Essa é a diferença entre ler números e interpretar um negócio.

O crédito não pode analisar apenas o passado

Existe ainda outra mudança importante. Grande parte da análise tradicional de crédito está baseada em informações históricas, pois o balanço mostra o que aconteceu, é um retrato do passado. A demonstração de resultados mostra o que aconteceu, como os resultados foram gerados ao longo dos exrecícios avaliados. Os indicadores mostram o que aconteceu.

Naturalmente, essas informações continuarão sendo fundamentais. Porém, uma decisão de crédito está relacionada ao futuro, pois a concessão de crédito implica necessariamente na necessidade do cliente honrar com compromissos futuros gerados com base em operações de crédito que será pagas noo futuro.

Quando concedemos um limite, estamos assumindo exposição para os próximos meses, por isso, a análise da situação econômico-financeira do cliente deve ter por objetivo prever a sua capacidade de pagamento futura.

Consequentemente, o analista precisa perguntar: O que pode acontecer com essa empresa durante o período em que estaremos expostos ao risco?

É nesse ponto que análise de cenários, informações setoriais, comportamento de pagamento, dados econômicos e inteligência artificial podem ampliar enormemente a capacidade do profissional.

A inteligência artificial substitui o analista de crédito?

Não. A inteligência artificial amplia a capacidade do analista, mas também muda o tipo de competência que terá valor.

Essa distinção é importante, pois a IA consegue processar volumes de informação muito superiores à capacidade humana, pode comparar exercícios, identificar padrões, localizar inconsistências, pesquisar mercados e construir cenários rapidamente, mas a velocidade não significa necessariamente qualidade da decisão.

Um sistema pode identificar que determinado indicador piorou ou melhorou, mas o analista precisa compreender por que variou e se e porque essa  mudança realmente impacta o risco de crédito. Essa linha de raciocínio faz uma diferença enorme.

A qualidade da IA depende da qualidade do analista

Existe uma ideia que considero fundamental para quem trabalha com inteligência artificial aplicada ao crédito: a qualidade da IA depende da qualidade do analista que a utiliza.

A ferramenta não conhece automaticamente o contexto da decisão. Alguém precisa definir quais informações são importantes e orientar a máquina.

Alguém precisa fazer as perguntas certas para que a leitura do cenário de risco seja mais assertiva e alinhada com as condiçõoes econômico-financeiras do cliente e do mercado.

Alguém precisa orientar o raciocínio da máquina para que ela possa entender oo contexto doo cliente e do mercado.

E, principalmente, alguém precisa avaliar criticamente as respostas, para identificar eventuais falhas no processamento das informações e nas conclusões emitidas pela máquina.

Eventuais falhas devem ser corrigidas na conclusão da avaliação e essas correções devem ser utilizadas para o redirecionamento da linha de raciocínio da máquina.

Um analista sem conhecimento técnico pode receber da IA uma resposta muito bem escrita e ainda assim não perceber que a conclusão está errada.

Por outro lado, um profissional experiente pode utilizar a mesma tecnologia para ampliar significativamente sua capacidade analítica.

Por isso, aprender a utilizar IA não significa apenas aprender a escrever prompts. Significa saber o que perguntar, por que perguntar e como validar a resposta recebida.

Esse será um diferencial importante.

O analista de crédito de 2030 precisará conhecer negócios

Essa é outra transformação deverá ganhar força. Não será suficiente dominar balanços. O analista precisará entender como a empresa analisada funciona, para que a interpretação dos números fornecidos por ela possam ser interpretados de forma adequada.

A leitura das informações deve responder a questões importantes como:

A empresa gera recursos para financeiros para sustentar seu negócio?

Quem são seus clientes?

Quem são seus fornecedores?

Qual é sua estrutura de custos?

Quanto capital de giro o negócio exige?

Existe concentração de clientes?

A receita é recorrente?

O setor é cíclico?

A companhia possui capacidade de repassar aumentos de custos?

Existem riscos regulatórios?

As questões a serem formuladas não terminam aqui, precisam ser mais diversas conforme as características do negócio da empresa avaliada, e ajudam a transformar informação financeira em avaliação de risco.

Um índice isolado não conta uma história, e precisa ser contextualizado para que se identifique se expressa cenário positivo ou negativo. O conjunto de indicadores bem interpretado, associado ao modelo de negócios e ao ambiente econômico, conta muito mais.

Do score para a decisão

Scores continuarão sendo extremamente importantes. Modelos estatísticos e sistemas de inteligência artificial deverão torná-los cada vez mais sofisticados. No entanto, um score responde apenas parte da pergunta.

Imagine uma empresa classificada como baixo risco. Isso significa que podemos conceder qualquer limite?

A resposta é, não.

A decisão precisa considerar também o valor da exposição. Uma empresa pode apresentar excelente qualidade de crédito e, ainda assim, não possuir capacidade financeira compatível com determinado volume de compras. Ou ter um bom scorer de risco em credit bureau e deficiente situação econômico-financeira no resultado da avalliação doos demonstrativos contábeis. Não se trata de falha do credit bureau ou nos registros contábeis. Pode ser que a situação econômico-financeira da empresa seja realmente preocupante, mas que o comportamento de pagamento ainda esteja sendo gerenciado de forma adequada por meio de estratégias de captação de recursos que podem se toornar cada vez mais limitada.

Por isso, existe uma diferença fundamental entre responder:

“Esse cliente apresenta bom risco?”

e responder:

“Quanto risco estamos preparados para assumir com esse cliente, olhando para todos os cenários que o envolvem?”

A segunda pergunta aproxima o crédito da estratégia.

Limite de crédito será cada vez mais uma decisão econômica

Um bom limite não deveria resultar apenas de uma fórmula.

Ele precisa considerar capacidade financeira, necessidade comercial, prazo de pagamento, exposição potencial, comportamento histórico e estratégia da empresa credora. Além disso, diferentes instrumentos podem mitigar o risco efetivamente assumido. Garantias, seguro de crédito, antecipação de recebíveis, redução de prazo e estruturas diferenciadas de pagamento podem permitir negócios que seriam inadequados em uma operação totalmente descoberta.

Portanto, o analista de 2030 precisará pensar menos em decisões binárias, aprovar ou recusar, e mais em estruturas de risco.

A pergunta deixa de ser simplesmente:

“Podemos vender?”

E passa a ser:

“Em quais condições podemos realizar essa operação mantendo o risco dentro de parâmetros aceitáveis?”

Essa mudança parece pequena. Na prática, ela transforma o papel da área de crédito.

Três níveis de profissionais poderão coexistir

Podemos imaginar a evolução da profissão em três níveis.

1. O analista operacional

Coleta documentos, consulta fontes, alimenta planilhas, calcula indicadores e produz relatórios. Essas são justamente as atividades mais expostas à automação.

2. O analista aumentado pela tecnologia

Utiliza sistemas e inteligência artificial para executar essas atividades com muito mais velocidade. Em vez de gastar horas produzindo informações, utiliza seu tempo para analisá-las.

Esse profissional já começa a surgir.

3. O estrategista de risco de crédito

Aqui ocorre a transformação mais importante. Esse profissional combina análise econômico-financeira, dados, tecnologia, conhecimento do negócio e pensamento crítico. Ele compreende o risco e também entende o impacto comercial da decisão. Consegue discutir exposição, construir cenários, e avaliar alternativas. E o mais importante, consegue explicar sua recomendação para vendas, finanças, diretoria e comitês de crédito.

A competência mais importante talvez não seja tecnológica

Pode parecer contraditório falar sobre o futuro e concluir que a principal competência não será dominar uma determinada tecnologia. Mas ferramentas mudam rapidamente.

Há poucos anos, várias das soluções de inteligência artificial que utilizamos atualmente sequer estavam disponíveis para o público.

Até 2030, certamente teremos tecnologias muito superiores às atuais. Por isso, uma competência tende a permanecer especialmente valiosa: a capacidade de aprender continuamente.

O profissional de crédito precisará estudar finanças, economia, tecnologia, setores, modelos de negócios e novas fontes de informação. Quando usamos a expressão “estudar”, não significa apenas sentar em cadeiras acadêmicas, mas ter espírito de curiosidade para saber como segmentos de atividades funcionam, quais são os fatores de sucesso ou de insucesso de empresas e mercados, conversar com profissionais mais experientes, ler publicações especiallizadas, participar de treinamentos profissionalizantes.

Além disso, terá de desenvolver pensamento crítico. O World Economic Forum identifica justamente essa combinação: competências tecnológicas ganhando relevância ao lado de pensamento analítico, criatividade, resiliência e aprendizagem contínua.

A tecnologia muda, mas a necessidade de compreender problemas permanece.

O futuro do crédito será menos operacional e mais estratégico

Durante muito tempo, uma parcela relevante do conhecimento do analista esteve associada à sua capacidade de produzir uma análise.

Agora, entramos em uma fase diferente. A produção tende a ficar mais rápida, a informação tende a ficar mais abundante, e os modelos tendem a ficar mais sofisticados. Consequentemente, o diferencial migra da informação para a interpretação.

O analista de crédito de 2030 não será valorizado porque consegue calcular mais índices que uma máquina.

Será valorizado porque consegue olhar para números, mercado, comportamento, estratégia e tecnologia e formular uma pergunta essencial: Qual é o risco que estamos assumindo e ele é compatível com o retorno que esperamos obter?

Essa sempre foi uma pergunta importante, e nos próximos anos, provavelmente será ainda mais.

Essa é justamente a transformação que torne a gestão de risco de crédito uma atividade ainda mais estratégica dentro das empresas.

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